Aprender uma segunda língua na infância traz benefícios cognitivos e socioculturais

Flexibilidade cognitiva, aumento do repertório cultural e abertura ao novo são algumas das vantagens para as crianças

Aprender duas línguas na infância é uma questão que ainda traz dúvidas para muitos adultos responsáveis. Mas, ao contrário do que alguns acreditam, o aprendizado de uma segunda língua não é prejudicial ao desenvolvimento da comunicação das crianças.

“A ciência mostra que o ensino bilíngue ainda nessa fase pode ter diversos benefícios cognitivo-linguísticos e socioculturais”, aponta Esther Simonato, fonoaudióloga formada pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em distúrbios da comunicação humana pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Entre essas vantagens, Esther cita um melhor desempenho em tarefas que demandam funções executivas, como a flexibilidade cognitiva e o foco. “Além disso, a exposição a diferentes línguas durante a infância também ajuda a promover e a aumentar o repertório cultural das crianças, algo fundamental para o convívio na sociedade globalizada atual”.

A especialista enumera ainda outros benefícios em aprender inglês na infância:

  • Maior facilidade na aquisição de um outro idioma;
  • Abertura ao novo pela descoberta de novas perspectivas;
  • Melhor qualificação para o mercado de trabalho;
  • Prevenção ou adiamento, na vida adulta, de doenças e transtornos cerebrais, como o Alzheimer.

Percepção equivocada superada

Esther conta que o bilinguismo durante a infância é motivo de preocupação para muitos familiares devido à percepção equivocada de que isso pode causar transtornos comunicativos.

Até a década de 1960, existia uma crença de que o ensino de dois idiomas na infância poderia ser prejudicial para o desenvolvimento cognitivo da criança. O argumento era que, à medida que o indivíduo aprende mais sobre a segunda língua, passa a “desaprender” a primeira e a ter dificuldades de se comunicar.

“Mas esse rumor foi posteriormente abolido pelos novos estudos, e atualmente sabe-se que esse aprendizado é benéfico para os pequenos”, destaca Esther. “Na realidade, com exposição adequada à segunda língua, o desenvolvimento da linguagem da criança bilíngue é similar ao da criança monolíngue”, diz ela. “O aprendizado bilíngue não torna a criança mais suscetível a desenvolver transtornos de linguagem”.

Desenvolvimento da linguagem e a idade ideal

Equívocos como os citados anteriormente podem inclusive prejudicar e adiar o início da aprendizagem e a aquisição de novos conhecimentos. “Embora as evidências científicas não apontem para uma idade ideal de exposição ao segundo idioma, é consenso na literatura que quanto mais cedo a exposição ocorrer, mais rápido será a aquisição”, comenta a especialista.

“No entanto, a idade não é um fator impeditivo para que esse aprendizado ocorra”, reforça. “Crianças expostas à segunda língua mais tarde são plenamente capazes de aprender e obter proficiência. Neste caso, um ambiente rico em linguagem é fundamental para garantir sucesso na instrução bilíngue”.

Aos adultos responsáveis e educadores de crianças bilíngues, a fonoaudióloga diz ser fundamental compreender a influência direta do contexto sobre a aprendizagem. “Além de um ambiente rico e estimulante, são necessárias diversas oportunidades de uso prático da língua e consistência na exposição linguística”, afirma. “Dessa forma, o segundo idioma será adquirido com sucesso e a criança se tornará proficiente”.

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